A origem do tarô não está no mistério do antigo Egito ou dos ciganos que muitos imaginam, mas, surpreendentemente, num jogo de cartas da Itália renascentista do século XV. A nobreza de então apreciava o "trionfi", um jogo com cartas de trunfo, e essas cartas ilustradas com luxo são os ancestrais dos atuais Arcanos Maiores. Em outras palavras, o tarô não nasceu como ferramenta de adivinhação, mas como cartas de baralho muito parecidas com um baralho comum. Os opulentos baralhos pintados à mão deixados pela família Visconti-Sforza sobrevivem até hoje como obras de arte.
O tarô uniu-se profundamente à adivinhação na França do século XVIII. Em 1781 o erudito Antoine Court de Gébelin afirmou que a sabedoria perdida do antigo Egito se ocultava como uma cifra nas imagens das cartas; embora depois se mostrasse uma fantasia romântica sem fundamento, a história cativante despertou enorme interesse. Pela mesma época, uma figura que atuava sob o nome de "Etteilla" sistematizou a adivinhação com tarô e publicou baralhos e manuais próprios, abrindo pela primeira vez o caminho do leitor profissional.
A forma que hoje melhor conhecemos nasceu na Inglaterra em 1909. É o baralho Rider-Waite-Smith, concebido por Arthur Edward Waite, da ordem mística "a Aurora Dourada", e desenhado pela artista Pamela Colman Smith. Sua verdadeira inovação foi dar também aos cinquenta e seis Arcanos Menores ilustrações com cenas completas. Graças a isso era possível ler uma história de forma intuitiva olhando as imagens, sem memorizar cada significado, e o tarô finalmente saiu do domínio de poucos e passou às mãos do público. Junto ao clássico francês mais antigo, o "Tarô de Marselha", esta linha Rider-Waite forma uma das duas grandes raízes das quais brotaram incontáveis baralhos no mundo todo.
No século XX o tarô transformou-se de novo ao encontrar a psicologia. Os conceitos de arquétipo e sincronicidade descritos pelo analista Carl Jung abriram o caminho para reler os símbolos do tarô como um "espelho do inconsciente": a ideia de que uma carta tirada ao acaso pode refletir uma verdade interior. Por isso os leitores sérios de hoje veem o tarô não como uma profecia que crava o futuro, mas como uma ferramenta de reflexão que espelha com clareza o seu coração e a sua situação presentes para ajudá-lo a escolher melhor.
Quanto ao presente, o tarô está mais perto de nós do que nunca. Inúmeros artistas independentes desenham novos baralhos com a própria sensibilidade, multiplicaram-se as variantes temáticas e as cartas oráculo —de gatos, plantas e mais—, e os aplicativos e as leituras on-line permitem a qualquer um abrir as cartas com facilidade. Ao contrário de seus inícios misteriosos, o tarô permanece hoje ao nosso lado não como uma ferramenta que sentencia o destino com severidade, mas como um rito gentil de autoconhecimento, consolo e um olhar sereno sobre o dia.