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Feng shui do dia a dia: entrada, quarto e cozinha

O feng shui do dia a dia não consiste em caçar um grande lugar auspicioso, mas na antiga sabedoria de perguntar como dispor os espaços do lar onde habitamos a cada dia para que o coração fique tranquilo e a energia flua bem. Os antigos viam a casa não como um mero edifício, mas como um recipiente em que pessoas e energia respiram juntas. Por isso, ao longo de muitas eras, acumularam-se e apuraram-se ideias sobre onde colocar o quê, onde iluminar e onde deixar vazio. Ao acolhê-las hoje, porém, é mais saudável tê-las não como regras que se devam obedecer, mas como referências dignas de remoer uma vez na mente. O que chama a atenção é que muitíssimas dessas ideias antigas tocam de forma natural no verdadeiro conforto da vida doméstica.

Primeiro, a entrada. No feng shui, ela era vista como a boca por onde a energia de fora penetra no lar, e como o assento das primeiras impressões. Por isso sempre se aconselhava manter a entrada luminosa e limpa. Quando os sapatos se amontoam em desordem num canto escuro, o coração de quem entra fica pesado de imediato; mas uma entrada clara e arrumada alivia o ânimo no instante mesmo em que se chega a casa. O pensamento tradicional, por sua vez, sustentava que convém evitar colocar um grande espelho bem de frente para a porta ao entrar. O raciocínio era que a energia que entra bate no espelho e volta a sair. Mesmo que você não leve isso ao pé da letra, basta iluminar a entrada e reduzir a desordem para que o espaço fique bem mais asseado.

O quarto é o espaço mais íntimo, onde se larga o cansaço do dia e corpo e mente se recuperam. Acima de tudo, o feng shui prezava a sensação de estabilidade. Aconselhava não situar a cabeceira da cama bem de frente para a porta nem encostada à parede de um banheiro: de frente para a porta, a pessoa se torna inconscientemente atenta às idas e vindas, e apoiar a cabeça contra um espaço de água corrente acreditava-se dificultar que o coração se acalmasse. Em vez disso, dizia-se ser bem mais repousante colocar a cabeça onde a porta se veja num relance, mas não de frente, e onde uma parede firme apoie você por trás. Isso difere pouco de uma disposição que de fato abre o campo de visão, dá segurança e favorece o sono profundo.

A cozinha, por ser o lugar onde se manuseia o alimento, recebia ênfase reiterada na limpeza e na ordem. O feng shui via o lugar do fogo como um espaço importante, responsável pelo sustento e pela saúde da casa. Por isso aconselhava limpar a gordura e os restos de comida assim que aparecem e devolver os utensílios ao seu lugar. Em particular, transmitiu-se o conselho de guardar lâminas como facas e tesouras numa gaveta ou bainha, em vez de deixá-las sempre penduradas à vista: ao mesmo tempo uma velha ideia sobre a energia de gume e uma norma de segurança que previne acidentes. Como uma cozinha limpa e arrumada também sossega quem cozinha, isso se aproxima mais da sabedoria da vida diária do que de uma regra misteriosa.

Os conselhos transmitidos sobre a sala e os espaços em geral o são ainda mais. Para que a boa energia flua sem bloqueio, dizia-se não amontoar coisas nas passagens, não cobrir as janelas para que a luz do sol entre bem, e arejar com frequência para manter o ar fresco. Olhados com calma, são princípios de arrumação, luz e ventilação que valem igual mesmo retirando o nome feng shui, proveitosos para qualquer um. Pois ao esvaziar o velho e pôr o lugar em ordem, o espaço não só parece mais amplo; também o coração de quem o habita fica mais leve.

No fim, o que podemos tomar do feng shui do dia a dia é claro. Não é preciso tremer de inquietação tratando a orientação de um espelho ou o ângulo de uma cama como medida absoluta de sorte e infortúnio. Contudo, o grande rumo — uma entrada luminosa e limpa, um quarto que dê estabilidade, uma cozinha limpa e segura, e um espaço arrumado com boa luz e ventilação — é uma direção que as ideias da tradição e o senso vivo do presente apontam lado a lado. Se, em vez de receber as velhas histórias do feng shui com imposição ou medo, você as tomar como um guia gentil que o faz olhar mais uma vez, com carinho, o espaço onde habita, isso basta. Quando um espaço se torna asseado, o coração se torna asseado, e num coração asseado a boa energia e as boas escolhas acabam por se assentar.

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Este conteúdo é de entretenimento e autorreflexão baseado na tradição e no simbolismo, não um fato científico.